Tuesday, January 8, 2008

N5: Gata Borralheira*

Início - Introdução
Era uma vez uma menina muito bonita que já não tinha mãe. O seu pai casara de novo e ela vivia com a sua madrasta, que tinha duas filhas. Tanto elas como a mãe eram bastante feias, porque eram más e orgulhosas. Tratavam a menina como uma criada, obrigando-a a fazer todos os trabalhos da casa e estavam sempre a mandar nela e a pedir-lhe coisas, pois eram também bastante preguiçosas. O pai estava ausente em viagem longa a serviço do reino e a menina não tinha ninguém que a protegesse e defendesse.
A menina não tinha muita roupa, ficava com os vestidos já muito velhos das meias-irmãs, que tinha de remendar e arranjar, e ia calçando uns tamancos, pois na maior parte do tempo ficava na cozinha, à beira da lareira, de tal maneira que a madrasta e as irmãs passaram a chamar-lhe Gata Borralheira.

PP5.1 – Em casa, no sótão
As únicas amizades que a pobre menina conseguia ter eram os animais, os passarinhos, os ratos e todos os outros bichinhos que lhe iam fazendo companhia enquanto ela limpava e esfregava e tratava das tarefas domésticas ou enquanto remendava a sua roupa no carto do sótão.

PP5.2 – Em casa, na entrada (jardim)
Uma manhã, passou o arauto a informar que o príncipe estava em idade de casar e que o rei, seu pai, ia organizar um baile para que o filho pudesse escolher a sua noiva de entre todas as moças que moravam naquele reino.
As duas irmãs ficaram logo muito entusiasmadas: pensaram logo que iriam ser as escolhidas do príncipe:
- Que bom! Vou ser a mais linda do baile. Certamente que o príncipe não tirará os olhos de mim!
- Eu vou ser a sua escolha. Irei tão bela que nenhuma outra o fará mudar de par.

PP5.3 – Em casa, no quarto da madrasta
As irmãs iam discutindo a sua beleza, enquanto, com a ajuda da mãe, tratavam de preparar tudo: mandaram fazer sapatos e vestidos novos, compraram jóias e escolheram penteados complicadíssimos para a tão esperada festa.
Enquanto tudo isto acontecia, as duas malvadas e a sua mãe iam fazendo troça da Gata Borralheira, a quem avisaram imediatamente que não esperasse ir ao baile porque era apenas para as meninas belas e ricas e não para criadas pobres e sujas, que nunca poderiam vir a ser princesas.
- Querias vir, não era? Pois o teu lugar é aqui, na cozinha! – troçava uma.
- Pensas que, mesmo que fosses ao baile, o príncipe te ia escolher? Uma pobretanas que mais parece andar vestida com esfregões – ria a outra.
- Meninas… Não macem mais a Gata Borralheira… Olha que ela ainda fica a pensar que também vai a um baile assim importante… Nem em sonhos! – rematava a madrasta.
Quando o dia do baile chegou, trataram logo de a pôr a ajudá-las a vestirem-se e a pentearem-se, fazendo-a correr de um lado para o outro para acudir às três, que faziam de propósito para a chamarem ao mesmo tempo.
Mal ficaram prontas, chegou a carruagem para as levar.


PP5.4 – Em casa, na cozinha
A Gata Borralheira voltou para o pé da lareira. Chorava muito e lamentava-se:
- Que pouca sorte tenho! Sem a minha mãe e o meu pai fora há tanto tempo não há ninguém que me ajude e me defenda! Nem ao baile posso ir, não tenho que vestir nem que calçar. Nem tenho como ir! E o arauto disse que o baile era para todas as raparigas em idade de casar…
Nisto, envolta num clarão luminoso, aparece-lhe uma fada.
- Como estás, Gata Borralheira? Eu sou a tua fada-madrinha e vim aqui porque me chamaste e ouvi os teus lamentos. Vou-te fazer ir ao baile para que possas conhecer o príncipe, como todas as moças deste reino.
A menina, espantada, nem conseguia dizer nada, mas lá murmurou:
- Mas eu não tenho o que vestir…
E a fada tocou-lhe com a sua varinha de condão; nesse instante os trapos que vestia transformaram-se num belíssimo vestido.
- Nem que calçar… – continuou, ainda mais espantada.
E a fada, de novo, tocou-lhe nos pés, calçando-a com dois maravilhosos sapatinhos de cristal.
- Estes sapatinhos pertenceram à tua mãe. – disse-lhe a fada. Trata-os bem.
A menina estava maravilhada! Olhava-se e sorria, vendo-se tão bela como uma verdadeira princesa, linda da cabeça aos pés, com um lindo penteado e simples, mas belas, jóias.
- Mas Madrinha… Como irei? – perguntou-lhe a jovem.
Então a fada tocou ao de leve em dois ratinhos, que se transformaram nos cocheiros, vestidos a rigor, e nos cavalos. Tocou também numa abóbora, que passou a ser um magnífico coche.
Tudo estava pronto.
-Vai – disse a fada-madrinha. – Mas terás de regressar antes da meia-noite: a essa hora o teu coche vai de novo transformar-se em abóbora, os cavalos e o cocheiro em ratinhos e voltarás a ter vestidas as tuas antigas roupas e tamancos nos pés.
A Gata Borralheira disse muito obrigada e partiu.

PP5.5 – Na estrada
A viagem até ao palácio era curta, mas o caminho tinha muitas pedras e o coche saltava acompanhando o acelerado coração da menina.

PP5.6 – No baile, no palácio
Quando chegou ao palácio, todos os olhos se pousaram nela. Ninguém sabia quem era, mas todos admiravam a sua beleza e elegância. Nem mesmo as irmãs e a madrasta a reconheceram, tão grande era a mudança que a fada fizera.
O príncipe, mal a viu, ficou de tal modo apaixonado que não falou com mais ninguém. Dançaram juntos todo o serão, sem tirarem os olhos um do outro, fazendo todas as outras moças, especialmente as meias-irmãs, ficarem bastante zangadas e ciumentas.
De repente, começaram a soar as doze badaladas da meia-noite e a Gata Borralheira exclamou:
- Meu Deus! Meia-noite! Tenho de ir!
E soltou bruscamente a mão do príncipe, correndo para a saída.
O rapaz, apanhado de surpresa, correu atrás dela, mas sem a conseguir alcançar.

PP5.7 – Fuga do palácio
Quando chegou à porta do palácio, o príncipe só viu o coche partir a toda a velocidade pela alameda. Triste, baixou a cabeça e olhou para o chão: um dos sapatinhos de cristal ficara caído nas escadarias.
O príncipe baixou-se e apanhou-o.
Ao voltar para dentro, sentou-se no trono com o sapatinho na mão e, naquela noite, não voltou a dançar, nem quis conhecer mais ninguém. Da menina, nem o nome sabia.

PP5.8 – Em casa, na cozinha
A Gata Borralheira chegou a casa mesmo a tempo. Logo de seguida, por artes mágicas, tudo voltou a ser o que era: a abóbora, os ratinhos, o seu vestido e os sapatos.
Sentou-se à lareira e esperou pacientemente pelas irmãs, com o coração muito feliz por ter ido ao baile e porque tinha estado com o príncipe naquela noite especial.
As irmãs regressaram pouco depois, bastante irritadas porque tinham sido ignoradas pelo príncipe que não tirara os olhos de uma desconhecida e ainda por cima tinha dançado só com ela a noite toda!

PP5.9 – Em casa, na sala (visita do príncipe)
No palácio, o príncipe não conseguira dormir a noite inteira a pensar na misteriosa menina e no sapatinho de cristal que ela deixara para trás.
Logo cedo de manhã, o príncipe saiu, acompanhado de alguns criados, em busca da donzela com quem dançara no baile. Foram de casa em casa, por todo o reino, a experimentar o sapatinho de cristal em todas as meninas em idade de casar, até que chegaram a casa da Gata Borralheira.
As duas irmãs correram, entusiasmas, para experimentar o sapatinho, mas nem o pé gorducho de uma, nem o pé comprido da outra nele couberam. Até a mãe tentou a sua sorte, mas sem resultado.
- Não há mais ninguém nesta casa? – perguntou o príncipe.
- Não… Bem, há a Gata Borralheira – disse a mãe.
- Mas ela nem foi ao baile! – exclamou uma das irmãs.
- Quero experimentar! – contestou o príncipe. – Não vou deixar nenhuma menina de fora! Ninguém!
E, contrariadas, lá foram chamar a Gata Borralheira à cozinha.
Mal a menina levantou o pé, o príncipe percebeu logo que era ela. E quando calçou o sapatinho de cristal, o seu delicado pezinho parecia que nunca calçara outra coisa.
Nesse instante, voltou por magia a ter o vestido que levara ao baile, o penteado e as jóias, e apareceu-lhe também o outro sapatinho. Estava deslumbrante!
O príncipe deu-lhe imediatamente a mão e levou-a até ao seu coche, seguindo juntos para o palácio, enquanto as irmãs e a madrasta ficaram a observar tudo, tão espantadas que nem conseguiam falar.

PP5.10 – No salão do palácio - casamento
Chegados ao palácio, o rei combinou logo o casamento, pois os dois jovens estavam muito apaixonados. Foi uma festa belíssima!
As irmãs e a mãe, arrependidas de a terem tratado tão mal, pediram muita desculpa à menina, que, como era muito bondosa, as perdoou rapidamente. Emendaram-se, casaram também mais tarde com dois fidalgos muito gentis e passaram a viver todos na corte em boa harmonia e felicidade.

FIM

*Adaptado de Mini Contos Clássicos 1. (Reescrita e Adaptação de Margarida Braga. Lisboa: Papa-Letras, 2005.), 81-96.

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