Era uma vez um rapaz que tinha dois irmãos: o seu pai, que era moleiro, morrera e deixara em testamento ao filho mais velho o moinho, o burro ao filho do meio e a ele, o mais novo, o gato.
O rapaz estava muito desanimado, pois os irmãos podiam ganhar a vida com o que tinham recebido, mas ele, apenas com um gato, não sabia como iria fazer. Então, decidiu correr mundo à procura de melhor sorte.
PP4.1 – Na estrada
Um dia, como não tinha conseguido nada, o rapaz sentou-se no chão e lamentou-se:
- Os meus irmãos tiveram sorte. Com o burro e o moinho puderam ganhar a vida. Agora eu, só com um gato, o que é que posso fazer?
E o gato, que estava ao lado do rapaz, respondeu, para seu grande espanto:
- Muito, patrãozinho. Dai-me um chapéu e umas botas e vereis: vou tornar-vos muito, muito rico – continuou, enquanto o rapaz o olhava com a boca aberta de espanto.
O rapaz achou que não tinha nada a perder e deu-lhe as botas e o chapéu.
O gato calçou as botas, enfiou o chapéu na cabeça e disse ao rapaz:
- Preciso também de um saco.
O rapaz deu-lho também.
- Pronto, agora vereis como eu consigo tornar-vos rico, mas tereis de fazer sempre o que vos disser.
E o rapaz ficou a ver o gato afastar-se na direcção à floresta com o saco às costas.
PP4.2 – Na floresta
Chegado à floresta, o gato preparou uma armadilha: enfiou dentro do saco bastantes ervas e colocou uma corda fina na abertura, para que qualquer animal que fosse comer as ervas ficasse preso no saco. Foi o que aconteceu a um enorme coelho.
PP4.3 – No palácio do rei
O gato dirigiu-se então para o palácio do rei, para continuar com o seu plano. Chegou lá e pediu para ser recebido:
- Majestade, ofereço-vos este coelho em nome do Marquês de Carabás – disse ao rei.
O gato, para poder chegar a falar com o rei tinha inventado este nome para que se pensasse que ele era o criado de um senhor nobre e rico.
A oferta do coelho foi muito apreciada pelo rei, que pediu para o gato agradecer ao marquês tanta gentileza.
O gato repetiu aquelas ofertas em nome do seu amo muitas vezes. Oferecia tudo o que caçava na floresta, faisões, coelhos, codornizes, lebres e tudo o que apanhava nas suas armadilhas. O rei já o conhecia bem e o Gato das Botas falava de tal modo do Marquês de Carabás que parecia que todos já se conheciam há muito tempo.
PP4.4 – No rio
Um dia, o rei anunciou que iria dar um passeio com a filha perto da floresta, à beira do rio.
O gato, mal ouviu aquilo, saiu a correr e foi ter com o rapaz:
- Vinde comigo até ao lago! Ao chegarmos, despi-vos e entrai na água. Fazei o que eu vos disser sem perguntas e tudo vai correr bem.
Mal o rapaz entrou dentro de água, o gato escondeu toda a sua roupa atrás de uma pedra.
Entretanto, o rei e a filha já se aproximavam. Então o gato começou aos gritos:
- Socorro! Socorro! O meu amo, o Marquês de Carabás, foi atacado e roubado e os ladrões lançaram-no à água. Salvai-o! Acudam!
O rei, ouvindo tais gritos, parou e reconhecendo o Gato das Botas, perguntou-lhe:
- Porque gritais assim? Que aconteceu?
- É o meu amo, o Marquês de Carabás! Foi roubado por terríveis malfeitores que no final o lançaram à água. Acudi-nos, por favor.
O rei mandou então que levassem roupas ao rapaz para ele poder sair da água e ter algo para vestir. Em seguida, convidou-o a seguir no passeio com eles e a subir para o coche, onde ele seguia com a filha.
Mal o rapaz olhou para a menina, ficou logo apaixonado: ela era linda. A menina, por sua vez, também gostou logo dele e começaram logo a conversar.
O gato propôs ao rei que aquela seria uma boa altura para lhe mostrar todas as terras e o castelo do Marquês de Carabás e ele concordou. Disse então que ia à frente para preparar tudo e, depois de indicar o caminho ao cocheiro, partiu a correr.
PP4.5 – Nos campos
O gato corria depressa pela estrada fora, ao lado de terras onde trabalhavam grupos de camponeses, e, dirigindo-se a eles, dizia-lhes:
- O Marquês de Carabás, o meu amo, vai livrar-vos do malvado gigante do castelo. Se vos perguntarem de quem são estas, dizei que são dele!
- Sim, sim, faremos isso! – respondiam, pois o gigante era na verdade mau e cruel.
Mais à frente, recomendou o mesmo a outro grupo, e sempre assim até chegar ao castelo do gigante.
O rei, ao passar, ia perguntando várias vezes de quem eram aquelas terras e os camponeses respondiam.
- Do Marquês de Carabás! Do nosso muito amado Marquês de Carabás.
PP4.6 – No castelo do gigante
O Gato das Botas chegou então ao enorme castelo do gigante.
O gigante era muito mau e cruel, metia medo aos camponeses e exigia-lhes trabalho e impostos, e quem não lhe obedecesse era logo castigado.
O gato pediu para entrar e falar com o gigante, que ficou muito espantado porque toda a gente tinha muito medo dele.
- Diz lá, gato. O que queres?
- Ouvi dizer que vossa excelência era dono de grandes poderes, e não quis deixar de ver com os meus próprios olhos, para acreditar no que me disseram.
- Então, fala: o que te disseram de mim?
- Que éreis capaz de vos transformar em qualquer animal, o que é uma coisa fantástica! Podeis transformar-vos num… num leão, por exemplo?
- Claro. Olha só.
E o gigante transformou-se num temível leão no espaço de um segundo.
- É espantoso! Nunca visto. Mas deve ser fácil porque o leão é quase do vosso tamanho. E se for uma criatura pequena… Num ratinho, por exemplo?
O gigante, que entretanto voltara ao seu aspecto normal, respondeu:
- Qual é a dificuldade? Grande ou pequeno para mim é igual. Queres ver?
E de novo o gigante deixou de ser gigante para passar a ser um pequeno rato.
Mal o ratinho surgiu, o Gato das Botas atirou-se sobre ele e comeu-o de uma só dentada.
O gigante desapareceu para sempre: era mau e fora enganado pela sua grande vaidade.
O gato era agora dono do castelo que tinha enormes riquezas e dominava muitas terras.
PP4.7 – No jardim do castelo (desfecho)
Entretanto, o rei estava a chegar com todo o séquito, e o gato foi esperá-los à porta do castelo. Mostrou-lhes todas as riquezas do Marquês de Carabás e o castelo de uma ponta à outra.
O rei estava a gostar muito do rapaz, pois era dono de muitas terras, daquele castelo e das fortunas que ele continha. A sua filha também olhava o novo Marquês de Carabás com um ar apaixonado e o rapaz, que já percebera o plano do gato, estava a fazer tudo como se fosse mesmo um nobre.
Com tanta coisa boa que o rei via no rapaz, não tardou muito a oferecer-lhe a sua filha em casamento. Combinou-se logo ali a boda, e os dois noivos ficaram radiantes.
O Gato das Botas ficou a viver com o rapaz e a menina no castelo, muito satisfeito, pois cumprira a sua promessa: o rapaz ficou muito rico, casou-se com uma princesa que amava e foi muito feliz.
FIM
*Adaptado de Mini Contos Clássicos 1. (Reescrita e Adaptação de Margarida Braga. Lisboa: Papa-Letras, 2005.), 33-48.
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