Tuesday, January 8, 2008

N2: Hansel e Gretel*

Início: Introdução
Era uma vez um lenhador muito pobre que vivia com a mulher e os filhos, um menino e uma menina, numa pequena casa perto da floresta. O rapaz chamava-se Hansel e a rapariga Gretel. Tinham apenas o mínimo para sobreviver, mas na época difícil de fome que atravessavam, nem pão havia para alimentar os filhos.

PP2.1 – Em casa do lenhador
Uma noite, já tarde, sem conseguir dormir, o lenhador desabafava com a mulher:
- O que há-de ser de nós? Como vamos alimentar os nossos filhos se não temos nada para lhes dar?
- Eu digo-te o que fazer, homem – respondeu a mulher – Amanhã, levamos as crianças connosco para a floresta. Quando estivermos bem longe, na parte mais densa do bosque, fazemos uma fogueira e damos a cada um um pedaço de pão. Depois vamos para o nosso trabalho e não voltamos para os buscar. Eles não vão conseguir encontrar o caminho de casa e, assim, livramo-nos deles e conseguimos sobreviver.
- Eu não consigo abandonar assim os meus filhos, mulher! – respondeu o lenhador pesaroso.
- Então morreremos todos de fome. E amanhã, é melhor começares a recolher madeira para o nosso caixão.
A mulher tanto falou e falou que conseguiu convencer o marido a aceitar o plano dela.
As crianças, que também não conseguiam dormir por causa da fome que sentiam, ouviram toda a conversa do pai e da madrasta. A pequenina Gretel começou a chorar, mas Hansel confortou-a:
- Não te preocupes, irmãzinha, vai tudo correr bem.
Dito isto, vestiu o casaco e saiu porta fora. Na rua, pedrinhas brilhavam à luz da lua e Hansel apanhou quantas pode e escondeu-as no bolso. De volta ao quarto, ao pé da irmã, aconselhou-a a dormir descansada, pois teriam um longo dia pela frente.

PP2.2 – Na estrada, a caminho da floresta
Bem cedo de manhã, a madrasta dos meninos acordou-os e, avisando-os de que iriam todos para a floresta apanhar lenha, deu um pedaço de pão a cada um.
E assim juntos puseram-se a caminho da floresta. Depois de caminharem um pouco, Hansel parou e olhou para trás em direcção a casa. De quando em quando repetia este movimento, até que o pai lhe perguntou o que se passava.
- Nada, pai, pareceu-me ver a minha gatinha a acenar-me do telhado. – respondeu. Mas o que Hansel fazia sempre que parava e olhava para trás era deixar cair uma das pequenas pedras que levava no bolso.
- Que tonto, rapaz, é apenas o sol a nascer. – disse a madrasta dos meninos.
E continuaram o seu caminho.

PP2.3 – Chegada à floresta
Quando chegaram ao centro da floresta, o pai dos meninos disse-lhes:
- Ide apanhar alguns ramos e façam uma fogueira para se manterem quentes.
O Hansel e a Gretel assim fizeram. A pilha de ramos que tinham juntado rapidamente se transformou numa fogueira e então a mulher disse-lhes para esperarem por eles ali que quando terminassem de cortar toda a lenha que precisavam, voltariam para os buscar.
Hansel e Gretel ali ficaram, descansados, porque ouviam por perto o machado do pai. Mas o que ouviam não era o machado mas sim um tronco que o pai amarrara a uma árvore velha e que, com o vento batia contra a árvore e fazia um som como o de um machado a cortar lenha.
Com o quente da fogueira, os dois meninos adormeceram, exaustos.

PP2.4 – Na floresta sozinhos
Quando acordaram, estavam sozinhos e era já noite escura. Gretel assustada começou a chorar, mas o irmão confortou-a:
- Não te preocupes irmãzinha. Esperamos que a lua fique alta e depois encontramos o caminho de volta a casa, de certeza.
Assim que a lua iluminou o céu escuro, Hansel e Gretel puseram-se a caminho, seguindo as pedrinhas que Hansel fora deixando cair e que a luz da lua fazia brilhar. Caminharam toda a noite e ao romper da manhã, os dois irmãos chegaram a casa do pai. Bateram à porta e foram recebidos com alívio pelo pai que não conseguira ficar tranquilo desde que os deixara.

PP2.5 – Em casa do lenhador
Pouco tempo depois, houve nova escassez de alimento – a terra nada produzia –, até que uma noite, estando ainda acordadas as crianças voltaram a ouvir os lamentos da mãe.
- Temos que nos livrar das crianças senão morremos de fome, homem. – dizia a mulher - Levamo-los mais para dentro da floresta, tão para dentro que nunca mais sejam capazes de encontrar o caminho de casa.
Ao ouvir isto, Hansel tentou fazer como da vez anterior e ir à rua buscar pedrinhas, mas a madrasta tinha trancado a porta e não havia forma de poder sair.
Na manhã seguinte, deu-lhes um pedaço de pão (ainda mais pequeno do que da vez anterior), e ordenou-lhes que se preparassem para irem com eles para a floresta.

PP2.6 – A caminho da floresta
A caminho da floresta, Hansel metia a mão no bolso e de quando em quando parava para deixar cair umas migalhas do pedacinho de pão que a madrasta lhe dera.
Os pais guiaram-nos bem para dentro da floresta, mais longe do que alguma vez tinham estado.

PP2.7 – Na floresta
Mais uma vez, quando já estavam bem longe dentro da floresta, os pequenos reuniram paus para acender uma grande fogueira e a mãe disse-lhes:
- Crianças, sentem-se e se estiverem cansados, durmam um pouco. Nós vamos mais para dentro da floresta para cortar lenha e assim que terminarmos vimos buscar-vos.
E os meninos ficaram ao pé da fogueira a verem os pais afastar-se até desaparecerem. Ao meio-dia, Gretel dividiu o seu bocado de pão com o irmão, pois este tinha espalhado o seu ao longo do caminho. Não demorou muito até que adormecessem profundamente e as horas passaram sem que ninguém os fosse buscar.

PP2.8 – Na floresta
Era já noite escura quando Hansel e Gretel acordaram e viram que estavam sozinhos e Hansel confortou a irmã:
- Não te preocupes, vamos esperar que a lua fique mais alta e depois seguimos as migalhas de pão que fui deixando a marcar o caminho de casa.
Quando a lua apareceu, os meninos levantaram-se e procuraram as migalhas, mas não encontraram nada. Os passarinhos da floresta, sem saberem a importância daquelas migalhas, tinham comido toda a pista que Hansel deixara. Mesmo assim, o menino não desanimou:
- Não faz mal, Gretel. Vais ver que encontramos uma forma de voltar para casa.
Mas não encontraram. Vaguearam pela floresta toda a noite e, no dia seguinte, de manhã à noite, mas não conseguiam encontrar o caminho para sair da floresta. Tinham também muita fome, pois só podiam comer as amoras que iam encontrando por onde passavam. Por fim, os meninos estavam tão cansados que não conseguiam andar mais, por isso, deitaram-se sob uma árvore e aí adormeceram.
Estavam já na terceira manhã, ali, sozinhos no bosque, e as suas buscas pelo caminho de casa apenas os levavam a perder-se cada vez mais para dentro da floresta. Os meninos sabiam que se não aparecesse alguém para os ir buscar que morreriam ali.
Ao meio-dia viram um lindo pássaro branco no raminho de uma árvore. O pequeno pássaro cantava uma melodia tão encantadora que os meninos pararam a ouvi-lo. Assim que terminou o seu canto, o passarinho levantou voo mesmo à frente das crianças, como se lhes dissesse “Sigam-me!”

PP2.9 – Casa de "Chocolate"
Hansel e Gretel seguiram o pássaro branco que os conduziu a uma casinha. Quando se aproximaram, os meninos descobriram que as paredes da casa eram feitas de pão, o telhado de bolos e açúcar transparente dava forma à pequena janela.
- Estamos salvos – disse Hansel – temos aqui muita comidinha! Eu vou comer um bocadinho do telhado, tu, Gretel, come um pouco da janela; é de certo bem docinha.
O Hansel esticou o braço e tirou um bocadinho do telhado para provar, e a Gretel colou-se à janela e ao parapeito começou a saborear.
Estavam os meninos a começar a saciar a sua fome, quando ouviram uma voz cortante que vinha de dentro da casinha:
- Quem se atreve a tentar comer a minha casa?
As crianças responderam:
- É o vento, é o vento, o doce vento que sopra como crianças celestiais. – e continuaram a comer tanta era a fome que tinham.
O Hansel, que estava a apreciar verdadeiramente o sabor do telhado, ia comendo bocadinho a bocadinho, enquanto a Gretel se sentara no chão para melhor saborear a portada da janela que arrancara por completo. De repente, a porta abriu-se e uma velha senhora, de ar muito respeitável, apareceu. Hansel e Gretel ficaram de tal forma aterrorizados que deixaram cair o que tinham nas mãos.
Mas a velha senhora abanou a cabeça de disse-lhes:
- Então, meus queridos? Quem vos trouxe até aqui? Entrem, entrem e fiquem comigo. Nada de mal vos acontecerá, aqui estão seguros.
A velha senhora conduziu os meninos para dentro de casa e serviu-lhes um jantar como eles nunca tinham visto. Depois de tudo comerem, duas pequenas caminhas esperavam por eles – os meninos, exaustos, deitaram-se e dormiram profundamente como anjinhos.
A velha senhora tinha sido muito amável, mas na verdade, tratava-se de uma bruxa que há muito tinha sentido as crianças perdidas no bosque e que, por isso, tinha construído a casa de guloseimas, para as atrair. Quando apanhava alguém, ela matava-o, cozinhava-o e comia-o. As bruxas têm os olhos vermelhos e não vêem muito bem, mas têm o olfacto muito apurado, como os animais, e por isso apercebem-se bem quando há humanos por perto. Quando Hansel e Gretel caíram na sua armadilha, a bruxa rira-se maliciosamente, a pensar no belo petisco que com eles iria fazer.

PP2.10 – Casa de "Chocolate"
Enquanto os meninos ainda dormiam, a bruxa pegou em Hansel e prendeu-o numa jaula, escondida num pequeno estábulo. Depois, acordou Gretel que, assustada por não ver o irmão começou a chorar e a gritar muito alto, mas de nada lhe valia.
- Rápido, preguiçosa, – ordenou a bruxa – faz um bom prato de comida para o teu irmão. Quando ele estiver bem gorducho, vou fazer dele um grande banquete.
Sem alternativa, Gretel obedeceu à bruxa. Cozinhava para o irmão, enquanto ela apenas comia cascas e restos. Todas as manhãs a velha malvada ia ao estábulo ver se Hansel já tinha engordado o suficiente:
- Hansel, põe o teu dedo de fora para eu ver se estás a engordar – dizia.
Hansel assim fazia, mas sabendo da pouca visão da bruxa, em vez do seu dedo, punha sempre um osso, fazendo assim a velha acreditar que ele ainda estava muito magrinho.
- Rapaz, porque emagreces tu tão devagar? – estranhava a bruxa, mas lá ia deixando os dias passarem.
Até que, quatro semanas depois, não havendo qualquer mudança no dedo de Hansel, a bruxa perdeu a paciência e decidiu não esperar mais.
- Gretel – chamou a bruxa – vai rápido pôr água no fogo. Não importa que o teu irmão esteja gordo ou magro, vou matá-lo e comê-lo amanhã mesmo!
A menina chorava e soluçava enquanto aquecia a água:
- Se os animais selvagens nos tivessem comido, pelo menos morreríamos juntos.
Mas nenhum lamento poderia salvar os dois meninos…
Logo cedo pela manhã a velha bruxa obrigou a Gretel a ajudá-la a preparar tudo para cozinhar o menino.
- Acendi o forno, Gretel – disse a malvada – preciso que vejas se está devidamente aquecido para fazer o pão. Sobe e espreita, rápido!
Gretel percebeu logo o que a velha queria fazer com ela e então disse:
- Não sei fazer isso, como é que eu entro no forno para ver se ele está quente?
- És mesmo pateta, rapariga – respondeu a bruxa – o forno é grande suficiente para eu lá entrar, vês?
E debruçou-se na entrada do forno, onde grandes chamas crepitavam. Gretel deu-lhe um pontapé com todas as forças que tinha e fechou a porta de ferro, sem se esquecer de a trancar. E assim deixou a velha malvada a assar lá dentro.
Depois correu rapidamente a abrir a jaula a Hansel:
- Estamos livre, Hansel; a velha bruxa está morta.
Os irmãos abraçaram-se muito e saltaram de alegria, felizes por estarem de novo juntos e fora do alcance da malvada.
Como já nada tinham a temer, resolveram fazer uma busca em casa da bruxa e em todos os cantos da sala encontraram caixas com pérolas e pedras preciosas.
- Vamos levar estas pedras maravilhosas, Gretel, e procurar o caminho de casa.
- Sim, também vou encher os meus bolsos – concordou Gretel.

PP2.11 – Na floresta
Abandonaram a casa da bruxa e já tinham caminhado algumas horas quando chegaram a um grande lago.
- Não conseguimos atravessar – disse Hansel. – Não há ponte.
- E também não vejo nenhum barco – acrescentou Gretel.
Nisto, Gretel viu um lindo cisne que passeava à distância:
- Olha, Hansel, um cisne! Vou pedir-lhe que nos ajude a atravessar.
E assim foi, a menina cantou alguns versos ao cisne, pedindo-lhe ajuda e ele veio ao seu encontro.
Hansel sentou-se nas suas costas e foi transportado para a outra margem e, logo depois, o cisne levou também Gretel. Sã e salvos na outra margem do lago, a floresta começou a parecer-lhes cada vez mais familiar e, de repente, à distância, reconheceram a casa do pai.

PP2.12 – Chegada a casa do lenhador
Os meninos correram em direcção à casinha, cheios de alegria e, assim que o lenhador abriu a porta, saltaram-lhe ao pescoço, tanta era a sua Felicidade.
O lenhador tinha sofrido bastante desde que os deixara no bosque e, depois da morte da mulher, tinha mesmo tentado procurá-los, mas sem sucesso.
Gretel tirou do bolso o seu lenço cheio de pérolas e pedras preciosas e Hansel colocou na mesa uma mão também cheia de tesouros. O pai estava espantado e muito contente com o regresso dos filhos. E assim terminaram todos os seus problemas e os três viveram felizes e sem dificuldades para todo o sempre.

FIM

*Traduzido e adaptado de The Annotated Hansel & Gretel, Sur La Lune fairytales.com, http://www.surlalunefairytales.com/hanselgretel/index.html, (acedido em Dezembro 2007).

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